Copenhague por Gabriela Almeida: três dias de design, encontros e novas referências
Gabriela Almeida percorre Copenhague e encontra no design, na cidade e nos encontros novas formas de ampliar seu repertório.
Para Gabriela Almeida, viajar para uma feira de arquitetura ou design nunca foi apenas uma forma de acompanhar tendências. É, antes de tudo, uma maneira de ampliar repertório, observar comportamentos, conhecer pessoas e entender como diferentes culturas transformam arquitetura, objetos e cidades em experiências.

Formada em Arquitetura em 2012, Gabriela construiu uma trajetória pouco linear e talvez justamente por isso tão conectada à pesquisa e à curiosidade. Antes de concentrar seu trabalho em produção de ambientes, curadoria e ativações de marcas, passou pela arquitetura comercial, residencial, esportiva e pela cenografia da TV Globo. Nos dois anos em que trabalhou na emissora, participou da construção de cenários de novelas e descobriu uma dinâmica que marcaria definitivamente seu olhar profissional: para criar um ambiente convincente, era preciso primeiro mergulhar no universo de quem o habitaria.

Uma casa, uma padaria, um camarim ou qualquer outro cenário exigia pesquisa. Gabriela precisava compreender personagens, hábitos, referências e contextos antes de pensar nos objetos e na composição daquele espaço. Foi ali que pesquisa e produção começaram a caminhar juntas em sua trajetória.
Esse interesse ganhou outras camadas quando ela decidiu viver na Europa. Durante um intercâmbio em Dublin, trabalhou em um escritório ligado a revestimentos e interiores e aproveitou a proximidade para visitar eventos como o Salone del Mobile, em Milão, e a Quadrienal de Cenografia de Praga. No Brasil, a DW! Semana de Design de São Paulo e a Semana Criativa de Tiradentes também passaram a integrar seu circuito de referências.
Mas foi em Copenhague que Gabriela encontrou uma combinação especialmente próxima de tudo aquilo que procura quando viaja.
A cidade como parte da exposição

Gabriela já esteve três vezes no 3 Days of Design, evento que espalha durante três dias exposições, lançamentos, instalações, palestras e encontros por Copenhague. E, para ela, a principal diferença está justamente no verbo “espalhar”.
Não existe apenas um pavilhão que concentre a programação. A cidade se transforma no próprio território da experiência.
“A cidade faz parte do evento muito intensamente”, conta. A melhor forma de conhecer o 3 Days, segundo ela, é caminhar. As exposições aparecem pelo percurso: em lojas, praças, galerias, edifícios, casas e espaços inesperados. Sinalizações indicam que algo está acontecendo, mas parte do encanto está em descobrir o evento à medida que se descobre Copenhague.
É uma dinâmica muito diferente da lógica convencional de feira, em que corredores, estandes e marcas disputam atenção dentro de um único espaço.
No 3 Days of Design, um sofá pode ocupar uma praça e passar a fazer parte da vida urbana. Uma exposição pode acontecer dentro de uma igreja. Móveis contemporâneos podem ser apresentados em um ambiente rústico, cercado por esculturas e paredes de pedra. Edificações importantes da cidade também se tornam cenários temporários para o design.

Essa relação entre produto e contexto é um dos aspectos que mais chama a atenção de Gabriela. A arquitetura não funciona como pano de fundo neutro: ela participa da narrativa.
Em uma das edições, por exemplo, ela entrou na própria casa de uma artista que estava expondo seus trabalhos ali. A visita tinha pouco da formalidade tradicional das grandes feiras, era preciso tirar os sapatos para entrar, tomar um café e conversar com quem havia criado as peças. Em outro momento, encontrou um coletivo de designers nórdicos que havia chegado à cidade de veleiro e transformado a própria embarcação em espaço expositivo, reunindo móveis, tapetes, objetos de vidro e outras criações.
São situações que ajudam Gabriela a definir Copenhague como um evento de caráter “comercial intimista”.
Existe negócio, existe venda, existem marcas interessadas em apresentar produtos. Mas a relação acontece de maneira mais próxima. Designers, criadores e representantes estão presentes, conversam com os visitantes, participam de happy hours e compartilham os espaços.
Mais do que descobrir produtos
O processo interessa. Quem fez aquela peça? De onde veio aquela ideia? Por que determinado material foi utilizado daquela maneira? Como uma marca está apresentando seus produtos? O que existe por trás daquela escolha estética?

Essa proximidade com quem cria é também o que a atrai em eventos brasileiros como a Semana Criativa de Tiradentes. Para Gabriela, uma das maiores riquezas dessas experiências está em poder conversar diretamente com artistas, fornecedores e designers que admira.
Copenhague acrescenta a isso uma forte dimensão urbana. A relação entre cidade e pessoas sempre interessou Gabriela desde a faculdade. Por isso, um dos momentos mais emocionantes de sua última passagem pelo 3 Days foi assistir a uma palestra de Jan Gehl, arquiteto dinamarquês conhecido por sua defesa de cidades desenhadas a partir da escala humana.
Gehl já fazia parte de suas referências muito antes da viagem. Encontrá-lo em um evento inserido justamente em uma cidade reconhecida por privilegiar pedestres, bicicletas e espaços públicos tornou a experiência ainda mais simbólica. Ao final da palestra, Gabriela foi conversar com ele e pediu um autógrafo para guardar em seu livro.
Quando uma solução técnica também vira design

O repertório construído nesses eventos também aparece em descobertas menos óbvias.
Uma das que mais chamou sua atenção em Copenhague foram as soluções de acústica. Gabriela encontrou materiais capazes de cumprir uma função técnica e, ao mesmo tempo, funcionar como parte da composição visual dos ambientes.
Em vez dos tradicionais tratamentos acústicos percebidos como elementos estritamente funcionais, os produtos assumiam cores, formas e paginações capazes de funcionar praticamente como revestimentos. Em uma das soluções observadas, obras de arte podiam ser impressas diretamente no material acústico: o elemento decorativo ajudava, ao mesmo tempo, a tornar o espaço mais confortável sonoramente.
Outro edifício despertou sua atenção pela integração entre estética e desempenho. À primeira vista, a fachada azul parecia revestida por painéis convencionais. Eram, na verdade, placas solares compondo praticamente toda a superfície do prédio.

É exatamente esse tipo de solução que Gabriela leva das viagens: não necessariamente algo a ser reproduzido, mas uma referência capaz de abrir novas possibilidades.
Cores intensas, sofás estampados, ambientes monocromáticos, contrastes entre mobiliário contemporâneo e arquitetura histórica, novas maneiras de expor um produto — tudo vai sendo incorporado a uma espécie de arquivo pessoal.
Nem sempre a referência é utilizada imediatamente. Às vezes ela permanece guardada até que um projeto, um cliente ou uma produção permita resgatá-la.
Pesquisa como método
Essa construção de repertório não termina quando a viagem acaba.
Gabriela pesquisa constantemente, inclusive universos que aparentemente estão distantes da arquitetura. Hotéis, restaurantes, gastronomia, barcos, eventos e outras áreas entram no radar justamente porque, para ela, olhar para fora da própria profissão melhora o trabalho dentro dela.
“Quando você pesquisa coisas de outra área, você fica muito melhor na sua área”, resume.

Para ela, arquitetura não é apenas aquilo que se projeta. Está também nas cidades que caminhamos, nas pessoas que encontramos, nos materiais que descobrimos e nas histórias que conseguimos enxergar por trás dos espaços.
E Copenhague parece sintetizar tudo isso: durante três dias, o design sai dos estandes, ocupa a cidade e convida quem passa a olhar com mais atenção.