Se morar é um direito, que arquitetura estamos construindo?

Se morar é um direito, a arquitetura precisa ir além do abrigo e criar espaços capazes de proteger, acolher e sustentar a vida.

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Se morar é um direito, que arquitetura estamos construindo?
Pune, Índia. (Foto: Mohnish Landge)

Celebrado nesta segunda-feira, 5 de outubro, o Dia Mundial da Arquitetura de 2026 colocou no centro do debate uma das questões mais essenciais da própria disciplina: o direito de morar. Com o tema “Housing is a Human Right. Build It.” — “Moradia é um direito humano. Construa-a.”, a União Internacional de Arquitetos propôs um olhar que vai além da quantidade de edifícios que somos capazes de erguer. A pergunta que causa reflexão é: que arquitetura estamos construindo e para quem?

Morar nunca foi apenas ocupar alguns metros quadrados. Uma casa é proteção, privacidade, segurança, pertencimento e memória. É o espaço onde o corpo encontra abrigo e onde grande parte da vida acontece. Talvez por isso a arquitetura possa ser entendida como uma espécie de segunda pele, porque a primeira é aquela que carregamos conosco; e a outra é construída ao nosso redor.

Hong Kong e as diferentes escalas do habitar. (Foto: Adomas Aleno)

Essa ideia se torna ainda mais relevante diante da dimensão da crise habitacional mundial. Bilhões de pessoas ainda vivem sem acesso a uma moradia adequada. E “adequada” é uma palavra importante nessa discussão. Ter onde morar não significa simplesmente ter um teto. Significa contar com água, saneamento, energia, segurança, mobilidade, conforto e acesso à cidade. Significa, sobretudo, encontrar condições para viver com dignidade.

É justamente nesse ponto que a arquitetura deixa de ser apenas aquilo que vemos para se tornar também aquilo que sentimos.

A pele de um edifício nunca é apenas aparência. Fachadas filtram luz e calor. Coberturas protegem das intempéries. Janelas regulam a relação entre interior e exterior. Materiais interferem no conforto térmico e acústico. Pisos, paredes e revestimentos participam silenciosamente da experiência cotidiana de um espaço.

Grand Parc des Docks de Saint-Ouen, Paris, França. (Foto: Mika Baumeister)

Cada superfície estabelece uma relação entre o corpo, o ambiente e o mundo ao redor.

Para o The Skin, falar sobre a pele das coisas é olhar justamente para essa camada de contato. Na arquitetura, a pele pode proteger, regular, acolher, comunicar e transformar. Pode contribuir para o desempenho de uma construção, reduzir sua demanda energética, responder às condições climáticas de determinado lugar e, acima de tudo, alterar profundamente a maneira como o espaço é vivido.

Por isso, talvez a palavra mais importante do tema deste ano seja justamente “construa”. Não necessariamente porque precisamos apenas construir mais, mas porque precisamos repensar o significado de construir.

Construir melhor. Construir de acordo com diferentes realidades econômicas, sociais e climáticas. Aproveitar estruturas que já existem. Criar edifícios capazes de se adaptar ao longo do tempo. Fazer escolhas mais conscientes de materiais e recursos. Pensar não apenas na entrega de uma obra, mas em tudo aquilo que acontecerá dentro dela depois que os arquitetos forem embora.

A discussão sobre moradia também toca em outra questão incômoda: em algum momento, passamos a tratar qualidade arquitetônica como um privilégio.

Iluminação natural, ventilação, conforto térmico, acessibilidade, segurança e uma boa relação com o entorno não deveriam ser atributos extraordinários. São elementos diretamente ligados à qualidade de vida e, portanto, deveriam fazer parte daquilo que entendemos como uma moradia digna.

Se habitar é um direito, a qualidade do espaço habitado também precisa entrar nessa conversa. Isso não significa que a arquitetura, sozinha, seja capaz de resolver a crise habitacional. O problema envolve acesso à terra, políticas públicas, financiamento, infraestrutura, desigualdade e planejamento urbano. Mas a arquitetura tem um papel fundamental na materialização dessas decisões. É ela que transforma números, políticas e metros quadrados em lugares onde pessoas realmente irão viver.

E é nessa escala humana que a discussão ganha força. Ao longo da história, celebramos a arquitetura por sua capacidade de produzir monumentos, ícones e edifícios capazes de definir o imaginário de cidades inteiras. Continuaremos fazendo isso. Mas sua função mais elementar permanece quase ancestral: oferecer abrigo.

Separar o corpo da chuva, do calor, do frio e da exposição. Criar um lugar onde seja possível descansar, guardar objetos, receber pessoas, construir vínculos e formar memórias.

A casa talvez seja a expressão mais íntima da arquitetura justamente porque é aquela que permanece mais próxima do corpo. É a arquitetura que tocamos diariamente, que atravessamos descalços, que observamos ao acordar e onde reconhecemos as marcas do tempo.

É a nossa segunda pele. O Dia Mundial da Arquitetura passou. A questão que ele colocou sobre a mesa, não.

Se morar é um direito humano, talvez o verdadeiro desafio da arquitetura contemporânea não seja simplesmente construir mais. É garantir que aquilo que construímos seja capaz de proteger, acolher e sustentar a vida.