A casa que é cenário

Em Barcelona, os arquitetos assistiram aos filmes rodados na casa antes de decidir o que preservar. Ali a autenticidade virou requisito técnico.

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A casa que é cenário

Antes de decidir o que podiam tocar, os arquitetos sentaram para assistir aos filmes.

A casa fica em Gràcia, Barcelona, atrás de um muro de pedra e um portão de ferro. Há anos serve de locação para produções de época; de Carla Simón a Ángela Molina, a lista de quem filmou ali é longa. Quando a família encomendou a reforma à H3O architects, o pedido não foi modernizar: era tornar a casa habitável hoje sem estragar o que a torna filmável.

Então foram ver o que as câmeras já tinham registrado. Da análise saiu a lista do que não se mexe: pisos de mosaico, radiadores, molduras, paleta de cor.

Restauraram a casa inteira para que ela pudesse continuar fingindo.

O que a casa guardou

Gràcia ainda tem algumas dessas casas com jardim, de quando famílias abastadas procuravam ar fora da cidade. Esta começou como uma casa de campo. No fim do século XIX, o proprietário voltou de Cuba com dinheiro de cana-de-açúcar e ampliou a propriedade: torre, galerias, molduras, balaustradas. A construção austera virou casa senhorial.

Os terrenos das outras foram loteados. O jardim desta continua lá, um dos últimos do bairro, com casinhas de ganso, arcos de cerâmica azul e uma fonte de figuras grotescas. Dentro, móveis, tapetes, luminárias e espelhos seguem no lugar - o estúdio descreve a casa como uma caixa que guarda a memória de uma família.

Sala com lustre, espelho dourado e piso de ladrilho hidráulico padronado
O piso padronado, o lustre e o espelho seguem onde sempre estiveram - é o que faz a casa filmar época sem cenografia.

É por isso que ela filma bem. Não é o estilo: é o fato de nada ter sido trocado.

A regra que eles decidiram não seguir

A doutrina do restauro pede o contrário. O elemento novo deve integrar-se ao conjunto e permanecer distinguível do original - foi o princípio que sustentou a peça sobre a gelateria de Seul, por honestidade documental: o acréscimo não pode se passar por antigo.

A H3O declara que fez o oposto. Não quiseram intervenção por contraste ou ruptura, mas melhoria a partir da compreensão do que já existia. Os elementos novos entraram, nas palavras deles, como peças contemporâneas inseridas como se sempre tivessem estado ali.

Não é descuido: os originais foram conservados com o que o estúdio chama de olhar quase arqueológico. É que aqui a autenticidade mudou de função. Ela deixou de ser uma virtude ética e virou requisito técnico: se a reforma se anunciasse como reforma, a casa perderia o trabalho.

O que entrou sem se anunciar

A cozinha foi ampliada mantendo a marcenaria e a pia de mármore originais, e os azulejos novos ecoam o tom do piso anterior. O banheiro antigo ficou inteiro; o novo cita o modernismo do antecessor com chuveiro circular, mosaico branco e piso escuro. Mármore retirado da obra voltou como bancada, e portas existentes foram realocadas.

Na circulação central, que era escura, entraram três janelas. Uma delas está atrás de um quadro. Num dos quartos há uma janela circular pivotante que o estúdio descreve como um olho que abre e fecha entre os cômodos.

Janela circular pivotante aberta sobre um console antigo
A janela circular pivotante, que o estúdio descreve como um olho que abre e fecha entre os cômodos.

Nada disso se apresenta como novo. Tudo isso é novo.

No Brasil, quem faz o papel do filme?

Aqueles filmes foram, tecnicamente, documentação prévia: registro do estado anterior, em movimento e com luz, disponível na hora de decidir.

Aqui esse instrumento existe e tem nome. O IPHAN chama de prospecção: complementa a pesquisa histórica e o levantamento cadastral antes de qualquer hipótese de projeto, e entrega mapeamento em plantas e elevações, documentação fotográfica e relatório. Na mesma doutrina, restaurar é restabelecer o bem garantindo a legibilidade dos seus valores.

Banheiro original preservado, com pia de louça, azulejo antigo e piso de ladrilho hidráulico
O banheiro original, preservado inteiro. O ladrilho hidráulico do piso é o mesmo repertório que chega ao retrofit brasileiro.

O problema é o alcance. Isso é exigido em imóvel tombado, por um decreto de 1937. O apartamento de época em Higienópolis, o sobrado no Bixiga, a casa de ladrilho hidráulico que você vai reformar no mês que vem - quase nenhum é tombado. Sem obrigação, ninguém levanta nada, e o estado anterior desaparece na primeira demolição, junto com a informação que diria o que valia manter.

A Casa Plató tinha filmes. Seu cliente não tem. Mas fotografar cômodo por cômodo antes de a marreta entrar custa uma tarde, e é a diferença entre restaurar e adivinhar.

A casa de Gràcia pode continuar fingindo porque alguém registrou o que ela era.

Fontes