A França é mais interessante. Mas eu prefiro a Itália.
A França pode ser mais interessante, exuberante e humana. Mas a Itália construiu um sistema de design tão poderoso que ainda é difícil não preferi-la.
A França é muito mais interessante do que a Itália no design. Mas eu prefiro a Itália. Logo, talvez eu não seja tão interessante assim.

Durante muitos anos, frequentei uma feira de cerâmica na Itália. Os estandes mais impressionantes eram quase sempre os das marcas italianas, mas havia uma marca francesa — ou melhor, uma marca francesa pertencente a um grupo italiano — que me encantava especialmente: a Novoceram.
Seus estandes tinham flores, estampas, cores, referências à natureza e, às vezes, até animais. Eram exuberantes, narrativos e sempre muito bem resolvidos. Meus companheiros de viagem, que tratavam o minimalismo italiano quase como uma religião, faziam bullying comigo toda vez que eu demonstrava entusiasmo.

Neste fim de semana acontece, em Paris, a Maison&Objet. É uma feira lindíssima: há cores, relevos, texturas, formas, humor e experimentação. O design apresentado ali costuma ser mais acolhedor, sensorial e humano. Existe algo de “Farm francesa” nessa linguagem — não como cópia estética, mas como manifestação de uma identidade cultural reconhecível, afirmativa e cheia de vida.
Esse design tem enorme valor. O que talvez lhe falte é um sistema com a mesma força do italiano: uma engrenagem capaz de integrar criadores, indústria, marcas, comunicação e distribuição, transformando uma identidade criativa em influência internacional duradoura.
Outro dia, um amigo italiano comentou que a economia da Itália não vai bem — e incluiu nessa crise a própria economia criativa. Pode ser. Mas um sistema como o do design italiano enverga e não quebra. Ou, pelo menos, ainda não quebrou.

As grandes marcas do design mundial continuam sendo italianas, ainda que muitas das empresas às quais pertencem já tenham sido adquiridas por grupos de outros países. O capital pode ter mudado de nacionalidade; a força simbólica das marcas, não. O sistema continua funcionando — e demonstra resiliência suficiente para continuar funcionando por bastante tempo.
A França, e o restante do mundo, que lutem.
Também se discute muito a suposta perda de relevância do Salone del Mobile de Milão. Algumas pessoas dizem que a feira já passou do auge. Mas, se as marcas que admiramos continuam expondo e lançando seus principais produtos ali, em que sentido exatamente ela deixou de ser relevante?

Podemos nos cansar de percorrer os mesmos lugares, repetir os mesmos circuitos e encontrar as mesmas pessoas. Cansaço pessoal, entretanto, não equivale a perda de relevância. Para entender Milão, é preciso olhar além da feira e compreender o sistema inteiro. Michael Porter já explicava isso em A vantagem competitiva das nações: a força não está apenas nas empresas isoladas, mas na rede de competências, fornecedores, instituições, concorrência e cultura que se forma ao redor delas.
Voltando ao The Skin: a pele do design de interiores que vemos na Maison&Objet talvez seja mais interessante, acolhedora e humana do que o minimalismo italiano levado ao extremo.
Mas nós, designers e arquitetos, frequentemente nos afastamos daquilo que é mais espontaneamente humano. Somos seduzidos pelo controle, pela contenção e pela elegância silenciosa.
Por isso, mesmo achando a França mais interessante, continuamos nos identificando com a Itália.
Eu, inclusive.