A França é mais interessante. Mas eu prefiro a Itália.

A França pode ser mais interessante, exuberante e humana. Mas a Itália construiu um sistema de design tão poderoso que ainda é difícil não preferi-la.

Compartilhar
A França é mais interessante. Mas eu prefiro a Itália.
Imagem da campanha da Maison&Objet 2026, em que cor, textura e movimento transformam o tecido em uma superfície quase arquitetônica, traduzindo o caráter sensorial e expressivo do design apresentado em Paris. (Imagem: Maison&Objet)

A França é muito mais interessante do que a Itália no design. Mas eu prefiro a Itália. Logo, talvez eu não seja tão interessante assim.

Maison&Objet, Paris. (Foto: Francis Amiand)

Durante muitos anos, frequentei uma feira de cerâmica na Itália. Os estandes mais impressionantes eram quase sempre os das marcas italianas, mas havia uma marca francesa — ou melhor, uma marca francesa pertencente a um grupo italiano — que me encantava especialmente: a Novoceram.

Seus estandes tinham flores, estampas, cores, referências à natureza e, às vezes, até animais. Eram exuberantes, narrativos e sempre muito bem resolvidos. Meus companheiros de viagem, que tratavam o minimalismo italiano quase como uma religião, faziam bullying comigo toda vez que eu demonstrava entusiasmo.

Maison&Objet, Paris. (Foto: Élodie Dupuis)

Neste fim de semana acontece, em Paris, a Maison&Objet. É uma feira lindíssima: há cores, relevos, texturas, formas, humor e experimentação. O design apresentado ali costuma ser mais acolhedor, sensorial e humano. Existe algo de “Farm francesa” nessa linguagem — não como cópia estética, mas como manifestação de uma identidade cultural reconhecível, afirmativa e cheia de vida.

Esse design tem enorme valor. O que talvez lhe falte é um sistema com a mesma força do italiano: uma engrenagem capaz de integrar criadores, indústria, marcas, comunicação e distribuição, transformando uma identidade criativa em influência internacional duradoura.

Outro dia, um amigo italiano comentou que a economia da Itália não vai bem — e incluiu nessa crise a própria economia criativa. Pode ser. Mas um sistema como o do design italiano enverga e não quebra. Ou, pelo menos, ainda não quebrou.

Um ambiente em que a cor deixa de ser detalhe e passa a construir o próprio espaço. (Foto: Maison&Objet)

As grandes marcas do design mundial continuam sendo italianas, ainda que muitas das empresas às quais pertencem já tenham sido adquiridas por grupos de outros países. O capital pode ter mudado de nacionalidade; a força simbólica das marcas, não. O sistema continua funcionando — e demonstra resiliência suficiente para continuar funcionando por bastante tempo.

A França, e o restante do mundo, que lutem.

Também se discute muito a suposta perda de relevância do Salone del Mobile de Milão. Algumas pessoas dizem que a feira já passou do auge. Mas, se as marcas que admiramos continuam expondo e lançando seus principais produtos ali, em que sentido exatamente ela deixou de ser relevante?

A combinação de listras, cores intensas e formas arredondadas transforma os objetos em protagonistas, revelando um design que não teme o excesso, o humor e a expressão. (Foto: Maison&Objet)

Podemos nos cansar de percorrer os mesmos lugares, repetir os mesmos circuitos e encontrar as mesmas pessoas. Cansaço pessoal, entretanto, não equivale a perda de relevância. Para entender Milão, é preciso olhar além da feira e compreender o sistema inteiro. Michael Porter já explicava isso em A vantagem competitiva das nações: a força não está apenas nas empresas isoladas, mas na rede de competências, fornecedores, instituições, concorrência e cultura que se forma ao redor delas.

Voltando ao The Skin: a pele do design de interiores que vemos na Maison&Objet talvez seja mais interessante, acolhedora e humana do que o minimalismo italiano levado ao extremo.

Mas nós, designers e arquitetos, frequentemente nos afastamos daquilo que é mais espontaneamente humano. Somos seduzidos pelo controle, pela contenção e pela elegância silenciosa.

Por isso, mesmo achando a França mais interessante, continuamos nos identificando com a Itália.

Eu, inclusive.