A pele de polka dots de Yayoi Kusama transformou a maneira como enxergamos o espaço

Yayoi Kusama transformou pontos em experiências que dissolvem limites e mudam nossa percepção do espaço.

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A pele de polka dots de Yayoi Kusama transformou a maneira como enxergamos o espaço
Yayoi Kusama chez Louis Vuitton sur les Champs-Elysées. (Imagem: Sortir à Paris)

Uma das artistas mais importantes do nosso tempo, Yayoi Kusama morreu aos 97 anos, em Tóquio, no dia 14 de agosto. Mas deixou uma linguagem visual tão poderosa que dificilmente desaparecerá.

Muito antes de suas bolinhas se tornarem reconhecidas em todo o mundo, elas já habitavam sua mente. Aos 10 anos, Kusama teve uma experiência alucinatória em um campo de flores com formas e pontos que pareciam se repetir infinitamente ao seu redor, até que ela sentiu o próprio corpo se dissolver naquele espaço. Décadas depois, essa experiência se transformaria em uma das assinaturas mais marcantes da arte contemporânea.

Yayoi Kusama ( Imagem: REUTERS/Toru Hanai/File Photo)

Nascida no Japão, em 1929, Kusama enfrentou a resistência da família para seguir como artista. Quando sua mãe rasgava seus desenhos, ela fazia outros. Quando faltavam materiais, criava com o que tinha. No final dos anos 1950, mudou-se para Nova York e passou a fazer parte de uma cena que redefiniria a arte do século XX, dialogando com nomes como Donald Judd, Andy Warhol e Joseph Cornell e transitando por movimentos como minimalismo, pop art, performance e instalações.

Mas Kusama fez algo ainda mais poderoso: transformou superfície em experiência.

Os pontos deixaram de ocupar apenas telas. Invadiram objetos, esculturas, corpos, ambientes e arquiteturas. Com repetição, espelhos, luz e escala, ela começou a questionar onde termina o objeto e onde começa o espaço.

Yayoi Kusama, Infinity Mirrored Room -The Souls of Millions of Light Years Away (Imagem: The Broad)

Essa investigação atingiu uma nova dimensão com suas famosas Infinity Mirror Rooms. Espelhos, luzes e superfícies refletivas criam ambientes em que os limites parecem desaparecer e o visitante passa a fazer parte da própria obra. As instalações ganharam enorme popularidade também nas redes sociais, mas sua força vai muito além da imagem impactante, elas alteram nossa percepção de escala, profundidade, limite e materialidade.

No Brasil, essa relação entre arte, paisagem e superfície pode ser vista em Narcissus Garden, em Inhotim. A instalação reúne 750 esferas de aço inoxidável sobre um espelho d’água. Ao refletirem céu, vegetação, arquitetura e visitantes, as esferas formam uma espécie de superfície viva, constantemente reorganizada pelo vento.

Yayoi Kusama, Narcissus Garden , 1966/2009. (Imagem: Pedro Motta)

E a linguagem criada por Kusama ultrapassou os limites dos museus. Chegou ao design, à moda e às grandes marcas, incluindo sua histórica colaboração com a Louis Vuitton, levando seus pontos para produtos, vitrines, fachadas e experiências de marca ao redor do mundo.

Yayoi Kusama chez Louis Vuitton sur les Champs-Elysées. (Imagem: Sortir à Paris)

Talvez esteja aí uma das grandes lições deixadas por Yayoi Kusama: uma superfície nunca precisa ser apenas superfície. Ela pode alterar escala, confundir limites, criar identidade, construir memória e mudar completamente a maneira como experimentamos um espaço.