O piso que foi cultivado

Em Copenhague, no 3 Days of Design 2026, conheci a Mimmik Tile — o primeiro revestimento cultivado por bactérias em vez de queimado no forno. Menos 60% de emissões que o cimento, cura em 72 horas. O que o arquiteto brasileiro pode fazer com esse repertório antes de o material chegar ao país.

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O piso que foi cultivado
Mimmik Tile instalada em piso, ao lado de carvalho. © Biomason / cortesia FRONT Materials

Este piso não foi ao forno.

Estava em Copenhague no 3 Days of Design, em junho, quando me deparei com a Mimmik Tile. A primeira reação é de reconhecimento: parece uma cerâmica. A textura, a massa, o formato. O olho classifica em menos de um segundo.

Mas é a mão que desmente o olho. Peguei uma peça: pesa como pedra, fria e densa, mais próxima do mármore do que do porcelanato. E o tato não encontra ali a memória do fogo que toda cerâmica carrega - porque o fogo nunca esteve presente.

Placas Mimmik Tile na cor Ginger, com a borda de 19 mm à mostra
Mimmik Tile na cor Ginger. A borda de 19 mm revela o corpo mineral. © Biomason

A Mimmik Tile não foi queimada. Foi cultivada. É biomineralização: bactérias ligam carbono e cálcio em carbonato de cálcio, o mesmo mineral que endurece um recife de coral. A Biomason batizou seu processo de Zymecrete. Sem forno, sem queima - a peça atinge resistência plena em menos de 72 horas, à temperatura ambiente. Temperatura de uma fazenda, não de uma indústria.

Placas de Petri com culturas bacterianas usadas no processo Zymecrete
As culturas que dão origem ao material. O revestimento cresce, não é fabricado. © Biomason

A Biomason é americana, da Carolina do Norte; a Front, o estúdio sueco que assina a colaboração. A fábrica que produz a placa em escala fica na Dinamarca: 20.000 m² por ano hoje, com capacidade projetada para 500.000 m² e além.

Não é protótipo. É produto em transição para o mercado.

O cimento convencional responde por cerca de 8% das emissões globais de CO₂. A Mimmik Tile emite ao menos 60% menos. Mas o número de emissão não é o que me interessa aqui - materiais de baixo carbono existem há tempos. O que é novo é a categoria. Um revestimento que cresce, não que é fabricado.

Placa Mimmik Tile na cor Pepper apoiada contra parede de tijolo branco
A variante Pepper. Duas cores, honed ou polished, 400 × 200 × 19 mm. © Biomason

No Brasil, essa placa ainda não chega. A Front entrega apenas para a Europa e a América do Norte - a América do Sul está fora da operação atual. Não existe Mimmik Tile para especificar aqui.

Mas existe CP-II com pozolana. Existe cinza de arroz como componente cimentante. Existe tecnologia de baixo carbono disponível como commodity - sem o nome, sem a narrativa, sem o argumento de design que transforma uma decisão técnica em diferencial de projeto.

A lacuna não é técnica. É de repertório.

Quando você explica a um cliente que um revestimento pode ser cultivado em vez de queimado, não está vendendo um produto. Está ampliando o vocabulário de decisão dele. E esse vocabulário, no dia em que o material atravessar o Atlântico, vai pertencer a quem já conhecia a gramática.

Este piso não foi ao forno.

Não é um material mais eficiente. É de outra família - a dos que crescem. E a primeira arquiteta brasileira a olhar para um cliente e nomear isso com naturalidade vai ter, de graça, o que o resto do mercado ainda vai levar anos para aprender a dizer.