A arte costuma chegar antes

Bienal de Veneza 2027 coloca a coexistência no centro do debate sobre arquitetura, matéria e superfícies

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Fachada do Museu de Ningbo, edifício com revestimento em concreto aparente e pedra natural, destacando janelas irregulares
Na fachada do Museu de Ningbo, na China, concreto aparente e tijolos reciclados coexistem em harmonia (Foto: Lv Hengzhong / Divulgação La Biennale di Venezia)

Antes das mudanças culturais, antes dos mercados e, muitas vezes, antes de conseguirmos nomear um desconforto coletivo.

Há algum tempo venho percebendo um tema recorrente atravessando a arte, o design e a arquitetura: um incômodo crescente com os sistemas que sustentam a vida contemporânea.

Sabemos que combustíveis fósseis são um problema. Sabemos que o plástico se tornou um dos símbolos de uma economia baseada na abundância e no descarte. Sabemos que muitos dos materiais que moldaram o século XX carregam desafios ambientais que já não podem ser ignorados.

Ainda assim, eles permanecem.

Porque funcionam.

Porque são acessíveis.

Porque estão incorporados à estrutura do mundo.

Toleramos muitas coisas.

Wang Shu e Lu Wenyu, arquitetos curadores da Bienal de Arquitetura de Veneza 2027
Wang Shu e Lu Wenyu, arquitetos do Amateur Architecture Studio, são os curadores da Bienal de Arquitetura de Veneza 2027 (Foto: Andrea Avezzù / Divulgação La Biennale di Venezia)

Talvez por isso tenha chamado minha atenção o anúncio da próxima Biennale Architettura di Venezia, que acontecerá em 2027 sob a curadoria dos arquitetos chineses Wang Shu e Lu Wenyu, fundadores do Amateur Architecture Studio.

O tema escolhido foi: Do Architecture — For the Possibility of Coexistence Facing a Real Reality.

Em tradução livre: “Faça Arquitetura — Pela Possibilidade da Coexistência Diante de uma Realidade Real”.

A palavra que mais me interessa nessa frase é “coexistência”.

Porque, quando observamos a história dos materiais, percebemos que a evolução raramente acontece por substituição completa. Ela acontece por sobreposição.

A madeira não desapareceu com o aço.

A pedra não desapareceu com o concreto.

O artesanal não desapareceu com a indústria.

O físico não desapareceu com o digital.

As camadas se acumulam.

Coexistem.

E é justamente nas superfícies que essa convivência se torna visível.

Toda superfície é um registro do seu tempo.

Ela revela quais recursos estavam disponíveis, quais tecnologias dominavam a produção, quais símbolos uma sociedade valorizava e quais narrativas desejava construir.

Durante décadas, as superfícies da arquitetura foram moldadas por uma lógica de padronização global. Materiais industrializados, sistemas replicáveis e cadeias produtivas internacionais permitiram construir praticamente a mesma pele em qualquer lugar do planeta.

A eficiência aumentou.

Mas, em muitos casos, a identidade diminuiu.

A obra de Wang Shu e Lu Wenyu segue na direção oposta.

Vista externa do Museu de Ningbo, na China, com arquitetura contemporânea marcada pela combinação de concreto aparente, tijolos reciclados e volumes geométricos integrados à paisagem urbana
Fragmentos de outras construções compõem o design contemporâneo da fachada do Museu de Ningbo, na China (Foto: Siyuwj)

Em projetos como o Museu de Ningbo, tijolos e telhas recuperados de demolições voltam a compor as fachadas. Fragmentos de construções desaparecidas tornam-se parte da nova arquitetura. A superfície deixa de ser apenas revestimento e passa a atuar como arquivo.

Ela carrega memória.

Carrega território.

Carrega tempo.

O que torna essa abordagem particularmente interessante não é a reciclagem em si.

É a possibilidade de imaginar superfícies capazes de conectar diferentes camadas de realidade.

Industrial e artesanal.

Antigo e contemporâneo.

Local e global.

Tecnologia e cultura.

Talvez seja essa a provocação mais relevante da próxima Bienal.

Não sobre arquitetura.

Mas sobre a matéria.

Sobre a pele das coisas.

Durante anos, buscamos superfícies cada vez mais perfeitas, homogêneas e controladas. Talvez estejamos entrando em um momento em que o valor passe a surgir justamente daquilo que revela origem, contexto e transformação.

Superfícies que não escondem a história dos materiais.

Superfícies que incorporam ciclos anteriores de uso.

Superfícies que expressam coexistência em vez de apagamento.

Ainda não sabemos quais discussões emergirão da Bienal de Veneza em 2027.

Mas existe uma questão que parece cada vez mais relevante para designers, arquitetos, fabricantes e especificadores:

E se a próxima geração de superfícies não for definida apenas por desempenho, tecnologia ou estética?

E se ela for definida pela capacidade de reunir, em uma mesma pele, tempos, culturas, matérias e significados que antes pareciam incompatíveis?

Talvez a coexistência não seja apenas um tema para a arquitetura.

Talvez ela seja uma das próximas fronteiras das superfícies.


Chris Ferreira é consultora em branding e inovação, com especialização no mercado de architectural surfaces. Atualmente trabalha apoiando empresas na construção de valor por meio da integração entre branding, cultura do design e comportamento de mercado