Veneza entre o tempo e o olhar contemporâneo
Veneza vai além da Bienal: cidade-lente onde arte, arquitetura e tempo se cruzam em experiências contemporâneas únicas
Saímos da Semana de Design de Milão rumo a Veneza. Nosso intuito era visitar a Bienal, mas, por poucos dias, não conseguimos pegar o início desta edição, que começa em 9 de maio. Ainda assim, Veneza nunca é um “plano B”. Veneza é, por si só, uma experiência estética completa.
Existe algo ali que vai além da arquitetura ou da história. É uma cidade que parece suspensa no tempo e, talvez por isso, seja o cenário ideal para o contraste com o que há de mais contemporâneo na arte.
Fondazione Pinault: referência em arte contemporânea

Entre os espaços que visitamos, a Fondazione Pinault impressiona. Instalada na Punta della Dogana, um antigo edifício portuário triangular restaurado por Tadao Ando (uma obra de perder o fôlego), a fundação é um exemplo claro de como a arquitetura pode ser mediadora do tempo. O concreto minimalista de Ando não compete com a história; ele cria silêncio para que a arte contemporânea fale.
O projeto é sustentado pela coleção de François Pinault, um dos mais influentes colecionadores do mundo, que transformou Veneza em um dos principais polos de arte contemporânea da Europa. Entre as obras, uma artista em especial chama atenção: Lorna Simpson.
A norte-americana é uma das vozes mais influentes da arte contemporânea, conhecida por transformar imagem e linguagem em reflexões profundas sobre sociedade e identidade. Suas obras transitam entre instalação e objeto, explorando camadas de transparência, luz e repetição. Há uma investigação quase arquitetônica na forma como ela constrói o espaço: suas obras não apenas o ocupam, mas alteram a maneira como o espectador se posiciona diante delas.
Não é sobre o que vemos, mas sobre como somos conduzidos a ver.
Peggy Guggenheim Collection: o olhar que antecipava o mundo


"White Cross" (1922), de Kandinsky, e "Alchemy" (1947), de Jackson Pollock, fazem parte da coleção de Peggy Guggenheim (Fotos: Juliana Peixoto)
Outro ponto essencial da nossa passagem foi o Peggy Guggenheim Collection. Mais do que um museu, o espaço carrega a história de uma mulher que mudou o rumo da arte moderna.
Peggy Guggenheim foi, antes de tudo, uma visionária. Em um momento em que muitos dos grandes nomes da arte ainda eram desconhecidos, ela apostou — com sensibilidade e ousadia — em artistas que hoje definem o que entendemos como arte do século XX.
Entre eles, nomes como Kandinsky, Pablo Picasso e Salvador Dalí. Sua coleção não é apenas relevante; é formadora de repertório.
Instalado em seu antigo palácio às margens do Grande Canal, o Peggy Guggenheim Collection traduz exatamente o que Veneza faz de melhor: mistura intimidade e grandiosidade, história e ruptura.
Veneza como lente

Veneza não é apenas um destino. É uma lente.
Uma cidade que amplifica contrastes, entre o permanente e o efêmero, entre tradição e vanguarda, entre o que já foi consolidado e o que ainda está sendo descoberto.
Talvez por isso a Bienal faça tanto sentido aqui.
E talvez por isso, mesmo sem ela, Veneza continue sendo um dos lugares mais relevantes para quem busca entender os movimentos da arte, da arquitetura e da cultura contemporânea.
Juliana Peixoto é jornalista, com mais de 20 anos em comunicação corporativa, marketing e gestão de reputação. Foi a responsável pela comunicação corporativa do Portobello Grupo e editora do site Archtrends, atuando na construção de narrativas e posicionamento de marca