A telha que muda de cor

Em Pequim, a nova flagship da Urban Revivo puxa para o roxo de um lado da rua e para o azul do outro. Sobre a telha que virou dispositivo óptico - e as duas rotas para chegar perto disso no Brasil.

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A telha que muda de cor
Fotos: Wen Studio / cortesia MVRDV

A fachada não tem cor. Tem hora.

Em Sanlitun, atravessei a rua e a loja trocou de cor. De um lado da calçada, a massa escura da nova flagship da Urban Revivo puxa para o roxo. Do outro, para o azul. Nada nela se moveu - eu é que mudei de ângulo.

O prédio é do MVRDV: 4.120 m² em quatro pavimentos, na rua que liga as duas alas do Taikoo Li. A pele é um painel de telhas e tubos de alumínio suspensos que, em alguns trechos, incha numa onda tridimensional. Telha mesmo - a forma do telhado de Pequim, tirada da cobertura e pendurada na vertical. Jacob van Rijs, que assina o projeto, conta ter partido de referências locais, as telhas da cidade, combinadas a técnicas modernas. Dentro, sete portais circulares citam os moon gates chineses sobre um fundo de tijolo cinza, o dos hutongs. A telha, ali, não veda nada. Ela performa.

Interior da loja com paredes de tijolo cinza claro e carpete azul
Dentro, o tijolo cinza dos hutongs faz fundo neutro para o azul da marca. © Wen Studio / cortesia MVRDV

E o que a faz mudar de cor não é pigmento. É um revestimento dicroico: camadas de óxidos metálicos com poucos nanômetros cada, depositadas sobre o alumínio. Cada camada reflete certos comprimentos de onda e deixa passar os outros, e o que chega ao olho é o saldo dessa conta. Como o saldo depende do ângulo em que a luz entra e do ângulo em que você olha, a cor muda enquanto você anda. É o mesmo fenômeno do óleo na poça e da asa do besouro. De frente, roxo. De viés, azul.

Detalhe das telhas de alumínio em close, com reflexo violeta
A mesma telha, de frente e com luz rasante: o violeta aparece. © Wen Studio / cortesia MVRDV
Detalhe da fachada em ângulo, telhas escuras com brilho bronze e azul
De viés, a mesma superfície escurece e puxa para o bronze e o azul. © Wen Studio / cortesia MVRDV

A cor não está na telha. Está no ângulo de quem olha - e, portanto, na hora do dia.

Venho escrevendo aqui sobre o que o material é e sobre o que ele finge ser. Esta fachada não faz nem uma coisa nem outra.

No Brasil, duas rotas chegam perto do efeito, e elas não são a mesma coisa.

A primeira é cerâmica. Revestimentos com acabamento madrepérola devolvem um furta-cor conforme a luz do ambiente. É produto nacional, de prateleira, e funciona em parede interna: lavabo, área de banho, um painel de destaque. O efeito é sutil por definição. Reage à luz, mas não troca de cor para quem passa do outro lado da rua.

A segunda é o vidro. Película dicroica existe aqui e é a mais fácil de especificar: a 3M DICHROIC DF-PA se aplica sempre na face interna do vidro, inclusive na face interna de uma parede de vidro externa - ou seja, dá para levar o efeito à fachada, desde que ela seja envidraçada. Se a pele não for de vidro, o caminho é vidro dicroico de fábrica, como o da SCHOTT: peça especial e importada, com o custo e o prazo que uma fachada autoral carrega.

O critério é não trocar uma pela outra na hora de apresentar a ideia ao cliente. Se a promessa é a pele que vira do roxo para o azul quando ele atravessa a calçada, um revestimento madrepérola não entrega isso, e a diferença aparece na primeira visita de obra. Prometer furta-cor e entregar furta-cor é o que mantém a conversa no plano técnico.

A fachada não tem cor. Tem hora. Para quem especifica, a lição não é o revestimento dicroico - é que a cor pode ser uma decisão de luz e de ângulo, e não só a amostra que se aprova em cima da mesa.

Fontes