Apostas para Milão 26

Salone del Mobile deve priorizar produtos resolvidos, com engenharia visível e menos excessos — inovação além do discurso

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Entrada do Salone del Mobile Milano, com grande fluxo de visitantes em passarela coberta
A 64ª edição do Salone del Mobile acontece entre 21 e 26 de abril, em Milão (Foto: Diego Ravier)

Acredito que veremos mais força de produto no Salone esse ano. As inovações vão disputar espaço com as ações comerciais — o cenário não está favorável pra quase ninguém.

E o que é força de produto? É produto mais resolvido: tecnologia bem aplicada para gerar complexidade real — relevos mais precisos, geometrias mais ousadas, soluções construtivas que não chamam atenção, mas elevam o material.

Mais do que “materialidade” como tendência, o foco deve estar em como ela é produzida: técnicas que simulam o artesanal, executadas por máquinas de alta precisão.

Superfícies menos tratadas, menos camadas, menos disfarce — o material mais direto, mais exposto. Não é ausência de acabamento, é ausência de maquiagem.

A engenharia tende a aparecer mais. Estrutura deixa de ser só suporte e vira linguagem — encaixes aparentes, sistemas modulares expostos, junções assumidas como parte do desenho.

Cadeira contemporânea com estrutura clara e assento estofado ao lado de mesa de centro com base escultural e tampo de vidro, em ambiente minimalista com parede texturizada
Inspiração artesanal, materiais expostos e estruturas aparentes estão entre as apostas para o Salone (Foto: Gallotti&Radice)

Esse movimento — materialidade, estrutura e essência — deve concentrar a parte mais inovadora do Salone.

Vale atenção: nem tudo que parece novo é, de fato, inovação. Parte disso também aparece como construção de narrativa e ação comercial.

Ao mesmo tempo, a busca pelo essencial — que também responde a um consumo mais contido — deve reduzir o excesso de mobiliário, objetos e iluminação nos ambientes. Menos peças, mais intenção.

Visitantes exploram estande de design no Salone del Mobile Milano, com móveis contemporâneos expostos em ambiente com estrutura colorida e curadoria de produtos
Ambientes do Salone devem adotar proposta minimalista (Foto: Ludovica Mangini)

Quando essas leituras chegam ao Brasil, elas raramente se mantêm intactas.

A força de produto vira efeito visual vendável. A materialidade refinada vira padrão de mercado. E a narrativa, muitas vezes, vira apenas discurso.

O resultado é um mercado que oscila entre parecer sofisticado, inovador e relevante — mas que ainda tem dificuldade de sustentar essas três dimensões ao mesmo tempo no produto.

Penso que a diferenciação começa antes da forma e da linguagem — no raciocínio de produto, no que ele entrega, no que resolve e no que sustenta ao longo do tempo.

Sem isso, qualquer novidade vira acabamento.

É uma aposta. Semana que vem a gente confere esse jogo.


Chris Ferreira é consultora em branding e inovação, com especialização no mercado de architectural surfaces. Atualmente trabalha apoiando empresas na construção de valor por meio da integração entre branding, cultura do design e comportamento de mercado