Apostas para Milão 26
Salone del Mobile deve priorizar produtos resolvidos, com engenharia visível e menos excessos — inovação além do discurso
Acredito que veremos mais força de produto no Salone esse ano. As inovações vão disputar espaço com as ações comerciais — o cenário não está favorável pra quase ninguém.
E o que é força de produto? É produto mais resolvido: tecnologia bem aplicada para gerar complexidade real — relevos mais precisos, geometrias mais ousadas, soluções construtivas que não chamam atenção, mas elevam o material.
Mais do que “materialidade” como tendência, o foco deve estar em como ela é produzida: técnicas que simulam o artesanal, executadas por máquinas de alta precisão.
Superfícies menos tratadas, menos camadas, menos disfarce — o material mais direto, mais exposto. Não é ausência de acabamento, é ausência de maquiagem.
A engenharia tende a aparecer mais. Estrutura deixa de ser só suporte e vira linguagem — encaixes aparentes, sistemas modulares expostos, junções assumidas como parte do desenho.

Esse movimento — materialidade, estrutura e essência — deve concentrar a parte mais inovadora do Salone.
Vale atenção: nem tudo que parece novo é, de fato, inovação. Parte disso também aparece como construção de narrativa e ação comercial.
Ao mesmo tempo, a busca pelo essencial — que também responde a um consumo mais contido — deve reduzir o excesso de mobiliário, objetos e iluminação nos ambientes. Menos peças, mais intenção.

Quando essas leituras chegam ao Brasil, elas raramente se mantêm intactas.
A força de produto vira efeito visual vendável. A materialidade refinada vira padrão de mercado. E a narrativa, muitas vezes, vira apenas discurso.
O resultado é um mercado que oscila entre parecer sofisticado, inovador e relevante — mas que ainda tem dificuldade de sustentar essas três dimensões ao mesmo tempo no produto.
Penso que a diferenciação começa antes da forma e da linguagem — no raciocínio de produto, no que ele entrega, no que resolve e no que sustenta ao longo do tempo.
Sem isso, qualquer novidade vira acabamento.
É uma aposta. Semana que vem a gente confere esse jogo.
Chris Ferreira é consultora em branding e inovação, com especialização no mercado de architectural surfaces. Atualmente trabalha apoiando empresas na construção de valor por meio da integração entre branding, cultura do design e comportamento de mercado