Quando a luz é a superfície

A reflexão de Chris Ferreira apresenta a iluminação como elemento fundamental da arquitetura, capaz de transformar superfícies, revelar texturas e modular a atmosfera emocional dos espaços

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Luminária com globos de vidro e acabamento metálico da Artemide
Artemide revela a luz como parte essencial da arquitetura (Foto: Marta Dzedyshko)

Sempre achei iluminação um tema complexo. Admiro as soluções de luminárias e os efeitos de luz que elas produzem, mas frequentemente tenho a impressão de que entender seus parâmetros e utilizá-las bem exige um conhecimento bastante específico.

Nas viagens para visitar o Salão do Móvel ou em qualquer passagem pela Itália, sempre gostei de me perder nos showrooms de algumas marcas icônicas, principalmente Artemide e Flos.

A Flos é escultural. Suas luminárias tornaram-se objetos de design icônicos, como a Arco lamp ou a Parentesi lamp — esta última, um verdadeiro sonho de consumo. Para mim, elas funcionam como peças extraordinárias dentro da arquitetura: objetos que dialogam com o espaço, mas que mantêm uma presença própria, quase escultórica.

Luminária decorativa em vidro e metal da Flos
Flos apresenta luminárias que se tornaram ícones do design contemporâneo (Foto: Azienda Flos)

Já a Artemide me parece operar de outra maneira. Seu repertório parece mais técnico e sistêmico, como se a luz fosse tratada diretamente como parte da arquitetura. Não apenas um objeto dentro do espaço, mas um elemento que participa da própria construção do ambiente.

Talvez essa diferenciação não seja completamente precisa. É, afinal, fruto de um olhar leigo, formado mais por imersões em showrooms e stands do que por conhecimento técnico aprofundado.

Mas o que realmente me interessa aqui é outra questão: a luz como superfície.

Seja na iluminação indireta que revela texturas e cria gradientes sutis nas paredes, seja na luz mais intensa que define focos ou cria barreiras visuais, a luz vem sendo tratada por muitos arquitetos como um recurso fundamental de projeto.

A luz veste a arquitetura.
E, ao vestir, transforma as superfícies.

Ela pode destacar texturas, criar profundidade, alterar a percepção das cores e modular a intensidade emocional de um espaço.

Além da forma de aplicação, direta ou indireta, existe também a dimensão da “cor” da luz, que tecnicamente corresponde à temperatura de cor. Esse ajuste regula profundamente a sensação humana de aconchego ou distanciamento dentro de um ambiente.

Luminária suspensa de madeira em camadas com iluminação quente sobre sofá em sala decorada
A temperatura de cor da iluminação define a atmosfera emocional de um ambiente (Foto: pvproductions)

É dessa atmosfera que emana das superfícies, mediada pela luz, que nasce muitas vezes a personalidade de um espaço. É por meio dessa sensação que estabelecemos nossa relação sensorial com a arquitetura.

A luz não cria o revestimento enquanto matéria.

Mas cria o Skin enquanto atmosfera.


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