The Skin Visits: Morada Eco

Uma visita a um espaço que mostra que especificar materiais não é apenas escolher acabamentos

Compartilhar
Chris Ferreira, do The Skin of Architecture, em frente à Morada Eco, loja de revestimentos e acabamentos sustentáveis em Florianópoli
Morada Eco, loja de revestimentos e acabamentos sustentáveis em Florianópolis, é a primeira parada do The Skin Vists (Imagem: The Skin of Architecture)

Uma visita a um espaço que mostra que especificar materiais não é apenas escolher acabamentos. É compreender possibilidades, atmosferas e novas formas de usar a matéria na arquitetura.

Quando falamos sobre superfícies, existe uma tendência natural de pensar em acabamento. A camada final de um projeto. A cor escolhida para uma parede. A textura aplicada a um piso. Aquilo que aparece na fase final de uma obra.

Mas a visita à Morada Eco revelou algo diferente. Mais do que uma loja de revestimentos, encontramos um espaço que convida arquitetos e designers a enxergarem os materiais como parte ativa da construção da experiência arquitetônica.

Logo na entrada, essa percepção já fica evidente. O projeto do Studio Gabriel Bordin utiliza Carvalho Europeu em pisos, paredes e teto, criando uma continuidade material que transforma completamente a sensação do ambiente. A madeira deixa de ser apenas um revestimento e passa a construir atmosfera. Existe uma sensação de acolhimento que encontrei em poucos lugares.

Foi uma das lojas mais aconchegantes em que já entrei, e acredito que isso nasce justamente da matéria: da presença do Carvalho Europeu, da forma como ele envolve o espaço e do delicado jogo entre os tons brancos e a madeira, uma combinação que me encanta e que contribui para essa atmosfera tão acolhedora.

Talvez essa tenha sido uma das principais reflexões da visita. Os materiais não definem apenas aparência. Eles definem percepção. Influenciam a forma como a luz é absorvida, como os sons se comportam, como o espaço transmite conforto, permanência ou sofisticação.

A conversa sobre madeira trouxe outra observação importante. Muitas vezes, a escolha de uma espécie começa pela cor. Queremos uma madeira mais clara, mais escura, mais quente ou mais fria. Mas a lógica da especificação deveria seguir outro caminho. Antes da tonalidade, existe o uso. Cada espécie tem características próprias de resistência, densidade, estabilidade e comportamento ao longo do tempo. A cor é apenas uma consequência das características naturais daquele material.

Essa mudança de perspectiva altera completamente a forma como pensamos superfícies. Em vez de selecionar materiais apenas por critérios estéticos, passamos a compreender suas qualidades intrínsecas e sua capacidade de responder às necessidades de cada projeto.

A Morada Eco também apresenta uma visão interessante sobre como os materiais podem assumir diferentes personalidades sem perder sua essência. O próprio Carvalho Europeu pode receber diferentes tonalidades por meio de processos de pigmentação ou ser fornecido já colorido de fábrica, ampliando as possibilidades de aplicação sem abrir mão das características naturais da madeira.

Outro destaque da visita foi o contato com o Shou Sugi Ban, técnica japonesa centenária que utiliza a carbonização superficial da madeira para criar uma camada de proteção natural e, ao mesmo tempo, gerar efeitos visuais de enorme profundidade. É um exemplo de como tradição, tecnologia e materialidade podem coexistir em uma mesma superfície.

Mas talvez o aspecto mais interessante da Morada Eco esteja na diversidade de soluções que convivem dentro do mesmo espaço. Entre madeiras naturais, encontramos revestimentos minerais produzidos a partir de fragmentos de pedras, materiais cimentícios que exploram o potencial escultórico do concreto e elementos em terracotta que valorizam a expressão natural da matéria.

E então surge um dos materiais mais surpreendentes da visita: o micélio. Aquilo que faz parte da estrutura dos fungos passa por processos de transformação e se torna um revestimento acústico para ambientes internos. Mais do que uma solução técnica, ele representa uma mudança de mentalidade. Uma ampliação do repertório sobre o que pode ou não pode se transformar em superfície arquitetônica.

Ao final da visita, fica evidente que o valor de um espaço como a Morada Eco não está apenas na variedade de materiais que apresenta. Está na forma como esses materiais são contextualizados. A especificação deixa de ser uma simples escolha de acabamentos e passa a ser uma reflexão sobre uso, desempenho, atmosfera e experiência.

Talvez essa seja a principal lição desta primeira edição do The Skin Visits. A arquitetura não começa quando desenhamos uma planta ou definimos uma volumetria. Ela começa muito antes. Começa quando entendemos a matéria. Porque toda superfície carrega uma história, uma tecnologia, uma cultura e uma forma específica de construir a relação entre as pessoas e os espaços que habitam.


Chris Ferreira é consultora em branding e inovação, com especialização no mercado de architectural surfaces. Atualmente trabalha apoiando empresas na construção de valor por meio da integração entre branding, cultura do design e comportamento de mercado