Além do Vermelho Valentino: a superfície como protagonista na exposição "VENUS"
Exposição “VENUS” transforma moda, arte e arquitetura em uma experiência sensorial sobre corpo e identidade
Passando por Roma, uma visita à Fundação Valentino Garavani e Giancarlo Giammetti nos deixou impressionadas. Estivemos na exposição “VENUS”, onde a artista Joana Vasconcelos estabelece um diálogo visceral com o legado de Valentino. E não se trata apenas de um evento de moda ou uma mostra de arte contemporânea. É uma lição sobre a “skin” das coisas.
Aliás, Valentino dispensa apresentações. Mesmo quem não é ligado ao mundo da moda em algum momento já deve ter ouvido falar do estilista italiano — falecido no início deste ano —, que é famosíssimo na alta-costura e chegou a criar o seu próprio tom de vermelho, o “Vermelho Valentino”.


Ao todo, 33 vestidos de Valentino e 12 obras de Joana se entrelaçam na exposição (Fotos: Juliana Peixoto)
Confesso que conhecia pouquíssimo sobre Joana Vasconcelos, mas fiquei encantada com o que vi. A artista contemporânea portuguesa é reconhecida internacionalmente por transformar objetos cotidianos em instalações monumentais, sensoriais e altamente simbólicas. Suas obras na exposição falam muito sobre superfície, corpo, identidade, excesso e memória.
A camada visível que cobre objetos, roupas, edifícios e espaços e que, muitas vezes, é tratada apenas como acabamento, aparece como narrativa, identidade e emoção. Talvez seja exatamente esse o ponto central de “VENUS”. Nada na exposição funciona apenas pela forma.
Os olhos brilham com os vestidos de Valentino, expostos como verdadeiras joias raras. Entre eles, os tecidos, bordados, volumes, brilhos e texturas criados por Vasconcelos não atuam apenas como ornamentação. Eles funcionam como uma superfície viva que ocupa o espaço e altera completamente a maneira como sentimos a arquitetura ao redor.


As obras de Joana valorizam as criações de Valentino e revelam camadas da identidade feminina contemporânea (Fotos: Juliana Peixoto)
Durante décadas, arquitetura e design trataram revestimentos, tecidos e materiais como escolhas estéticas quase técnicas. Algo associado à finalização de um projeto. Mas para a alta-costura, sempre ficou claro que a superfície nunca foi superficial. Um vestido, por exemplo, é mais que a silhueta; ele é sobre a maneira como o tecido se move, absorve luz, cria profundidade e produz presença.
Em muitos momentos, a exposição deixa de parecer uma coleção de obras e passa a funcionar como um grande organismo sensorial. Um ambiente onde moda, arte e arquitetura dissolvem suas fronteiras para discutir algo maior: a relação emocional entre corpo, matéria e espaço.
Juliana Peixoto é jornalista, com mais de 20 anos em comunicação corporativa, marketing e gestão de reputação. Foi a responsável pela comunicação corporativa do Portobello Grupo e editora do site Archtrends, atuando na construção de narrativas e posicionamento de marca