O que a CASACOR 2026 revela sobre a pele da arquitetura
CASACOR 2026 privilegia arquitetura sensorial: afeto e bem-estar surgem da materialidade e das experiências, não apenas do discurso
Ao ler os textos de divulgação, comentários de visitantes e relatos dos profissionais participantes da CASACOR São Paulo 2026, percebi algo curioso.
Embora o tema da mostra seja “Mente e Coração”, as respostas propostas pelos arquitetos, designers e paisagistas raramente acontecem através de conceitos abstratos.
Elas acontecem através da matéria.
Livros.
Tecidos.
Objetos acumulados ao longo do tempo.
Lareiras.
Jardins.
Texturas.
Tons profundos de vinho, verde e terra.



Pedras, madeiras e tecidos criam vínculos sensoriais entre corpo e espaço (Projeto 1: Pam Faccin Arquitetura - Foto 1: Bia Nauiack / Projeto 2: Maai Arquitetura Integrada - Foto 2: MCA Estúdio / Projeto 3: Felipe de Almeida - Foto 3: Bia Nauiack / CASACOR São Paulo)
Em praticamente todos os relatos aparecem palavras como “afeto”, “acolhimento”, “pertencimento”, “memória”, “reconexão” e “bem-estar”. Mas o que me chamou atenção não foi a repetição desse vocabulário. Foi a forma como essas intenções se materializam.
Em uma época marcada pela digitalização crescente da vida cotidiana, pela aceleração da informação e pela presença cada vez maior das interfaces virtuais, a arquitetura parece estar procurando respostas em algo mais elementar: a experiência sensorial.
Não é por acaso que bibliotecas voltam a aparecer como símbolo de contemplação. Que lareiras retornam como elemento recorrente. Que ambientes maximalistas convivem com referências afetivas, objetos herdados, artesanato e materiais naturais. Há um desejo evidente de recuperar densidade, presença e vínculo.



Materiais naturais, antiguidades e artesanato ancoram memórias e afeto, dando densidade aos ambientes (Projeto 1: BSB Arquitetura - Foto 1: MCA Estúdio / Projeto 2: Paulo Azevedo - Foto 2: Carolina Mossin / Projeto 3: Rafaella Manso Arquitetura - Foto 3: Roberta Gewehr / CASACOR São Paulo)
Mas existe uma questão interessante.
Afeto não é uma característica inerente de um ambiente.
Afeto é uma percepção.
E percepções não são construídas por discursos. São construídas por experiências.
A luz que atravessa um espaço ao longo do dia.
A rugosidade de uma superfície sob a mão.
A absorção acústica de um tecido.
A temperatura de uma pedra.
O cheiro de uma madeira.
A profundidade de uma cor.
A escala de uma estante repleta de livros.



Lareiras, jardins e bibliotecas criam refúgios sensoriais onde o tempo desacelera (Projeto 1: Suite - Foto 1: MCA Estúdio / Projeto 2: Ana Lui e Karen Marini - Foto 2: Camila Santos / Projeto 3: NJ+ Arquitetos - Foto 3: MCA Estúdio / CASACOR São Paulo)
Em outras palavras, aquilo que chamamos de emoção na arquitetura frequentemente se manifesta através da sua pele.
A pele é a camada de contato entre corpo e espaço.
É onde a arquitetura deixa de ser ideia e passa a ser experiência.
Talvez por isso a materialidade tenha voltado ao centro da discussão. Não apenas como acabamento ou recurso estético, mas como instrumento para produzir sensações, construir atmosferas e gerar significado.
Ao observar os discursos desta edição da CASACOR, também tive a impressão de que estamos diante de uma mudança mais ampla.
Durante grande parte do século XX, a arquitetura esteve associada a uma ideia de futuro. O discurso falava de progresso, inovação, tecnologia, eficiência e transformação.
Hoje, pelo menos nesta mostra, a narrativa parece diferente.
Há menos interesse em imaginar futuros radicais e mais interesse em reconstruir relações.
Relações com a casa.
Com a memória.
Com a natureza.
Com os objetos.
Com o tempo.
Talvez isso explique por que tantos ambientes recorrem a referências familiares, materiais táteis e elementos que evocam permanência. Como se a arquitetura estivesse respondendo a uma necessidade contemporânea de ancoragem.
Mas também percebo uma tensão interessante.
Quando todos falam de afeto, o risco é que o afeto se transforme apenas em linguagem. Uma palavra repetida até perder força.
O desafio não está em afirmar que um espaço acolhe. Está em compreender quais elementos fazem com que ele acolha.
E é justamente nesse ponto que a materialidade se torna relevante.
Porque a emoção não acontece separada da matéria.
Ela acontece através dela.



Texturas, tons profundos e luz natural modulam percepções, transformando matéria em experiência (Projeto 1: Felipe Carolo Arquitetura - Foto 1: MCA Estúdio / Projeto 2: Teresa Simões - Foto 2: Carolina Mossin / Projeto 3: Gui & Dado Castello Branco - Foto 3: MCA Estúdio / CASACOR São Paulo)
Talvez a grande contribuição da CASACOR 2026 não esteja em apresentar uma nova tendência formal ou uma nova estética dominante. Talvez esteja em revelar uma inquietação coletiva: a busca por espaços capazes de nos reconectar com algo mais humano em um mundo cada vez mais mediado por telas.
E, ao observar as respostas apresentadas pelos profissionais, uma conclusão parece inevitável.
Quando a arquitetura procura tocar a mente e o coração, ela quase sempre começa pela pele.
Chris Ferreira é consultora em branding e inovação, com especialização no mercado de architectural surfaces. Atualmente trabalha apoiando empresas na construção de valor por meio da integração entre branding, cultura do design e comportamento de mercado